(escrito a 22 de Novembro de 2014)
Já aqui escrevi que a lusa Pátria tem tido, de duzentos em duzentos anos, crises muito profundas que, não fora a resiliência deste nobre povo, já há muito havíamos desparecido como nação soberana e independente!
Em resumo cronológico temos:
- crise de 1383-1385: salvamos a soberania da Pátria "elegendo" como Rei o nosso D. João I, filho bastardo de outro Rei. A visão deste, e o génio militar e coragem de D. Nunes Álvares Pereira, permitiram-nos derrotar Castela em Aljubarrota;
- crise de 1580: D. Sebastião morre em Alcácer Quibir e não deixa descendência. Castela "convence" praticamente toda a nossa nobreza a respeitar a linha de sucessão que passava por Filipe II de Espanha, filho de D. Isabel de Portugal. Depois do reinado inteligente deste, vieram filho e neto que rapidamente se esqueceram dos compromissos assumidos com os portugueses. Em 1640, o povo saiu à rua, liderado pelo Rei D. João IV e recupera a nossa soberania e independência!
- crise de 1807: os exércitos de Napoleão invadem pela 1ª vez Portugal, tendo a Corte de D. João VI fugido para o Brasil, de modo a garantir a nossa independência. Só à fome morrem mais de 50.000 portugueses e o País vive sem Rei nem Roque durante décadas, funcionando praticamente como um colunato inglês até à 2ª metade do século XIX. Acresce a tudo isto a perda da joia da Coroa, o Brasil, em 1822. Anunciou-se mais uma vez o fim do País, mas a nação resistiu!
Cerca de 200 anos depois, tendo pelo meio dois momentos fundamentais com o fim da Monarquia em 1910 e a ditadura em 1974, a Pátria confronta-se novamente com uma crise profundíssima, que está longe de ser exclusivamente económica e financeira.
O problema é antes de mais do sistema político, passando pelos seus actores e respectiva organização.
O sistema político-partidário bloqueou e há muito que foi comprado pelos interesses instalados. Rodamos as cores partidárias no poder, mas os resultados são invariavelmente os mesmos.
O bloco central dos interesses, corporizado no chamado arco da governação (PS, PSD e CDS), que nos (des)governa há 40 anos, no essencial estabeleceu entre sí um sistema de coexistência em concubinato, trocando cheques e favores entre as nomenclaturas dirigentes.
A renovação e sobretudo a regeneração dos partidos políticos não é permitida pelos caciques instalados no poder, situação agravada pela fonte de recrutamento, as juventudes partidárias, estarem viciadas nos tiques e esquemas do sistema vigente.
Acresce que nos últimos tempos temos assistido a uma catadupa de casos judiciais com decisões de prisão efectiva ou simples detenções que sinalizam a podridão do sistema, e envolvendo figuras importantes do regime, como Armando Vara, Duarte Lima, José Penedos, Paulo Penedos, Ricardo Salgado (até há poucos meses o Dono Disto Tudo), os presidentes do IRN, SEF e SIS e, a cereja em cima do bolo, o próprio José Sócrates.
Ao mesmo tempo caía a família de referência do sistema financeiro português, os Espírito Santo, arrastando consigo alguns dos seus rapazes mais bem pagos, como Henrique Granadeiro ou Zeinal Bava, tendo este último sido condecorado recentemente pelo Sr. Presidente da República pela sua "genialidade como grande gestor da PT". O trambolhão da PT e a sua anunciada venda pelos brasileiros da OI veio mostrar de forma cristalina o embuste em que vivemos no plano mediático, político e empresarial, atirando-se uma das maiores empresas nacionais para uma situação de profunda fragilidade que não augura nada de bom para o País e para os seus trabalhadores.
Meus caros, a coisa fede brutalmente e, ou eu estou a ver mal isto tudo, ou isto anuncia fim de regime!
Faço votos que a justiça faça o seu trabalho com total independência e no escrupuloso respeito pelas leis da República. Já agora, dispensa-se espalhafato e circo no tratamento das coisas da justiça, sendo seguramente recomendável a discrição e o recato dos trabalhos e das decisões.
António Ribeiro
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