À ZEFITA
Foi apoio, lastro, manto, aconchego, amor, afeto… foi mãe!
Nasceu em 1928, sem nada e, todavia, com tudo aquilo que permite a um ser humano ser tudo, porque simplesmente o quer ser!
Calcorreou os montes e as penedias das serras, guardando ovelhas e cabras.
Na condição de pastora cresceu e guardou sonhos!
Conheceu o João, amor da sua vida, a cuja relação devemos a nossa existência e o ser!
Quis Deus e a sorte que o haveria de conhecer numa festa das proximidade, na Senhora do Barrocal, obviamente!
Pois é, a pobre e humilde pastora de capuchinha às costas decidiu ir comprar laranjas ao Santuário em festa e regressa com o saco das ditas e as diabruras doces e as malandrices do João, mais tarde sapateiro, de pobres e descalços das terras do Demo e seus cercanos arredores!
Começou mal o convívio entre ambos, porque amistoso não foi: a Zefita haveria de invadir terras do carvalhal sem autorização nem passaporte carimbado, falha imperdoável à luz dos critérios dos pastores do vale do Coja!
Verdade verdadinha é que ficou marcada para a vida com a aparente fúria de um ser maior, que sempre converteu em doces e afetos, os amargos e encontrões que a vida lhe deu!
Namorou e deixou-se namorar pelo João, único amor da sua vida, de quem foi mulher apressada pelas escorregadelas de um primeiro filho que se concretizava mais cedo do que o protocolo tradicional aconselhava!
Foi mãe de sete filhos, sendo que quis a natureza que só pudesse criar seis!
Teve-os todos de forma corajosa, na sua casa e na terra que a viu nascer, Douro Calvo, essa terra mítica que brilharia sempre acima de qualquer capital do dito mundo desenvolvido.
Conheceu África onde viveu sem esforço, mas de onde partiu sem mágoa nem saudade, depois de uma década onde viu crescer os seus seis filhos, mas onde teve de assistir à morte de um deles.
Regressa sem nada a uma Terra de onde tinha partido com igual fortuna!
Com a força e a coragem de sempre, reconverteu-se ao estatuto de mãe-camponesa, desbravando terras e bocados que o diabo não gostaria de cultivar!
Jamais vacilou na sua luta contra as adversidades da vida e os contratempos que a sorte arredia insistiam em oferecer-lhe.
Deu-lhes com a mesma força que sempre haveria de imprimir aos seus combates metapsicológicos com as forças estranhas que, no seu entender, lhe haveriam de levar uma filha de tenra idade e lhe apoquentavam a paz da sua casa e dos seus!
A todos rezava e responsava com a coragem e a crença da gente grande que sabia que, de uma forma ou de outra, haveria de salvá-los a todos das amarguras do mundo e da vida, incensando os seus espíritos e almas contra tudo aquilo que a sua compreensão não conseguisse alcançar!
Viveu, lutou e nunca desistiu de nada por preguiça ou falta de esforço e empenho.
Foi grande na vida e gigante na morte, onde depois da Ceia de celebração do nascimento do Cristo criador que tanto amava, se despediu e ausentou dos seus, para uma viagem de paz eterna que tanto fez por merecer pelo imenso amor que sempre dedicou aos outros.
Zefita, minha querida e saudosa mãe, hoje fazes 97 anos! Continuamos e continuaremos juntos, sempre!
18 de Junho de 2025
António Ribeiro, o caçula!