domingo, 10 de agosto de 2025

A INFORMAÇÃO DAS NOSSAS TVs, OU O FILME DAS NOSSAS DESGRAÇAS!

Acabo de assistir a mais um dos serviços noticiosos das nossas TVs, no horário das 20h00, neste caso da TVI.

Na linha do que vem acontecendo nos vários canais de sinal aberto há algum tempo a esta parte, o serviço noticioso das 20h00 começa mais cedo cerca de 5 minutos, sendo que na presente data teve início às 19h54, não fosse o espectador fugir para outro canal...

Arrancou com o chumbo da lei dos estrangeiros no Tribunal Constitucional e ganhou um balanço de desgraças sucessivas e um crescendo angustiante, que não mais parou até às 21h22, salvo para colocar no ar uma rubrica típica de Verão, fora do cartaz noticioso.

Sem pretender elencar com rigor cronológico a emissão do portfólio de notícias, limito-me, apenas, a dar conta do generoso rol de desgraças noticiosas com que a TVI nos brindou no jornal das 20h00 de hoje:

1. Chumbo da lei dos estrangeiros no Tribunal Constitucional, com as habituais entrevistas às partes para que se pronunciassem sobre o problema;

2. Incêndios pelo País fora com os directos habituais, acompanhados das imperdíveis entrevistas a comandantes de Bombeiros, quais estrelas televisivas da Estação do ano em curso; a populares angustiados e atordoados pelas chamas e pelo fumo tentando salvar os seus bens e o seu património; a especialistas de combate a incêndios, sempre com soluções de execução aparentemente fácil, mas que, por qualquer razão que nós desconhecemos, nunca são implementadas de um ano para o outro, tornando fatal a repetição da tragédia dos fogos anos e anos a fio;

3. Incêndio no sul de França, com proporções gigantescas, recolhendo o troféu do mais dantesco das últimas décadas;

4. As cheias na China, com várias mortes e milhares de famílias desalojadas;

5. A incontornável guerra na Ucrânia e os malabarismos repetidos até à náusea pelo Sr. Putin, para fingir que quer uma paz que nunca quis. Por sua vez, e do outro lado do Atlântico, Trump conta os minutos para explicar aos Americanos que, apesar de ter terminado o seu pseudo-ultimato a Putin, nada vai fazer embora garanta que tudo vai mudar. É o que se chama a arte do grande ilusionista do faz de conta;

6. A guerra em Gaza, as imagens das crianças esfomeadas, sejam elas de hoje ou anteriores à guerra, coisas que a Inteligência Artificial ainda não consegue destrinçar ou, pelo menos, ainda não a convocámos a fazer, talvez por conveniência "jornalística"...

7. As esquadras da Polícia afinal não têm Polícias, pelo que escusam de lhes bater à porta a pedir socorro porque ninguém vos pode valer... liguem o 112 e rezem à nossa Sra de Fátima para que sejam atendidos antes que a chamada caia;

8. A plataforma do SNS está com problemas sérios e não permite as funcionalidades habituais, nomeadamente nos acessos às receitas para saber quais os medicamentos que ainda podem ser dispensados.

Acresce que ficámos a saber que o Sr. Presidente da República, o inefável Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, em mais uma das suas quatro declarações diárias aos orgãos de comunicação social, está a avaliar a situação do SNS e irá pronunciar-se sobre o mesmo no final do período de férias... aguarda-se com grande ansiedade mais esta tomada de posição do Sr. Presidente da República!

Pela minha parte, e de modo a prevenir mais este embate psicológico, já mandei reforçar a dose de ansiolíticos de toma líquida dos laboratórios das Regiões do Dão e Douro, nas doses branco, tinto e rosé, de modo a ultrapassar mais este momento de grande crise nacional...

9. Os trabalhadores de terra dos aeroportos resolveram contribuir, mais uma vez, para a felicidade de quem espera um ano inteiro para fazer as merecidas férias e avançaram para mais uma greve em pleno pico do mês de Agosto... a isto chama-se sentido de oportunidade sindical!

10. Pelo meio do noticiário foram chovendo outras notícias avulsas e de profundidade dramática equivalente, todas elas concorrendo no sentido de manter o cidadão desprevenido agarrado do princípio ao fim ao rosário de desgraças que o País e o mundo nos oferecem, em pleno período de férias de 2025;

11. Por último, e porque nem tudo na vida e no mundo é mau, o pivôt de serviço, o José Alberto Carvalho, brinda-nos generosamente às 21h22, ou seja, 1h28 depois do arranque do serviço noticioso da desgraça, com as mágicas palavras que transcrevemos: "e por último, uma boa notícia..." e discorre sobre um menino de três anos que toca piano deliciosamente acompanhado por uma orquestra!

Em suma, depois de nos bombardearem com desgraças, sangue e lágrimas durante uma hora e meia, a TVI teve a bondade de nos oferecer dois minutos de uma boa notícia ocorrida no mundo dos vivos, numa mensagem subliminar do tipo: "Ó minha gente, isto está muito mau, mas ainda poderia estar pior..."!

É um consolo e um bálsamo cada vez maior assistir aos serviços noticiosos das nossas TVs, em que nos anunciam que o mundo pode acabar amanhã, e só por caridade cristã é que não nos dizem que poderia acabar ainda hoje! São tão generosos estes canais televisivos e os jornalistas que os servem, que me desfazem a alma!

Acho que as TVs e os seus gurus do marketing, ainda não perceberam porque é que estão a perder espectadores todos os dias!

Pela minha parte, já tomei uma decisão há bastante tempo: vou dar-lhes cada vez mais folga, buscando aqui e ali, as belezas e os mágicos encantos que este País e este mundo ainda têm e em doses apreciáveis!

Boas férias para todos os meus amigos!

 

Linda-a-Velha, 8 de Agosto de 2025

António Ribeiro

terça-feira, 8 de julho de 2025

 À ZEFITA


Foi apoio, lastro, manto, aconchego, amor, afeto… foi mãe!
Nasceu em 1928, sem nada e, todavia, com tudo aquilo que permite a um ser humano ser tudo, porque simplesmente o quer ser!
Calcorreou os montes e as penedias das serras, guardando ovelhas e cabras.
Na condição de pastora cresceu e guardou sonhos!
Conheceu o João, amor da sua vida, a cuja relação devemos a nossa existência e o ser!
Quis Deus e a sorte que o haveria de conhecer numa festa das proximidade, na Senhora do Barrocal, obviamente!
Pois é, a pobre e humilde pastora de capuchinha às costas decidiu ir comprar laranjas ao Santuário em festa e regressa com o saco das ditas e as diabruras doces e as malandrices do João, mais tarde sapateiro, de pobres e descalços das terras do Demo e seus cercanos arredores!
Começou mal o convívio entre ambos, porque amistoso não foi: a Zefita haveria de invadir terras do carvalhal sem autorização nem passaporte carimbado, falha imperdoável à luz dos critérios dos pastores do vale do Coja!
Verdade verdadinha é que ficou marcada para a vida com a aparente fúria de um ser maior, que sempre converteu em doces e afetos, os amargos e encontrões que a vida lhe deu!
Namorou e deixou-se namorar pelo João, único amor da sua vida, de quem foi mulher apressada pelas escorregadelas de um primeiro filho que se concretizava mais cedo do que o protocolo tradicional aconselhava!
Foi mãe de sete filhos, sendo que quis a natureza que só pudesse criar seis!
Teve-os todos de forma corajosa, na sua casa e na terra que a viu nascer, Douro Calvo, essa terra mítica que brilharia sempre acima de qualquer capital do dito mundo desenvolvido.
Conheceu África onde viveu sem esforço, mas de onde partiu sem mágoa nem saudade, depois de uma década onde viu crescer os seus seis filhos, mas onde teve de assistir à morte de um deles.
Regressa sem nada a uma Terra de onde tinha partido com igual fortuna!
Com a força e a coragem de sempre, reconverteu-se ao estatuto de mãe-camponesa, desbravando terras e bocados que o diabo não gostaria de cultivar!
Jamais vacilou na sua luta contra as adversidades da vida e os contratempos que a sorte arredia insistiam em oferecer-lhe.
Deu-lhes com a mesma força que sempre haveria de imprimir aos seus combates metapsicológicos com as forças estranhas que, no seu entender, lhe haveriam de levar uma filha de tenra idade e lhe apoquentavam a paz da sua casa e dos seus!
A todos rezava e responsava com a coragem e a crença da gente grande que sabia que, de uma forma ou de outra, haveria de salvá-los a todos das amarguras do mundo e da vida, incensando os seus espíritos e almas contra tudo aquilo que a sua compreensão não conseguisse alcançar!
Viveu, lutou e nunca desistiu de nada por preguiça ou falta de esforço e empenho.
Foi grande na vida e gigante na morte, onde depois da Ceia de celebração do nascimento do Cristo criador que tanto amava, se despediu e ausentou dos seus, para uma viagem de paz eterna que tanto fez por merecer pelo imenso amor que sempre dedicou aos outros.
Zefita, minha querida e saudosa mãe, hoje fazes 97 anos! Continuamos e continuaremos juntos, sempre!

18 de Junho de 2025
António Ribeiro, o caçula!